Fábrica de cerâmica e faiança fundada por Luís Soares Henriques em 1796, situada na zona da Bica do Sapato, junto ao Tejo, em Lisboa. A sua criação insere-se no contexto do florescimento das manufaturas cerâmicas lisboetas no final do século XVIII, impulsionado por políticas de proteção da produção nacional e por iniciativas industriais privadas. Um documento de 11 de fevereiro de 1797 refere a concessão de licença para a instalação de uma “fábrica de louça fina, chamada faiança”, na Horta das Flores, defronte do Cais do Tojo, em localização então periférica mas favorável ao transporte e ao comércio fluvial.
O primeiro mestre foi Joaquim Simpliciano Franco, que requereu as isenções fiscais concedidas aos mestres das fábricas reais, ao mesmo tempo que o proprietário solicitava para o estabelecimento o epíteto de “Real”. Embora a designação tenha sido concedida, os administradores da Junta não terão considerado o trabalho do mestre digno de especial destaque. Em 1813, a fábrica passou à posse de José Rodrigues de Magalhães, e, independentemente da propriedade, ficou também conhecida como Fábrica do Capitão-Mor, designação usada na documentação histórica.
A produção compreendia faiança utilitária e decorativa, incluindo pratos, travessas, tigelas, jarras, terrinas e outras formas moldadas e pintadas à mão. Distingue-se pela decoração com paisagens, ou “países”, enquadradas por grinaldas de gosto neoclássico, bem como por motivos florais, geométricos e ornamentais, executados com diversos pigmentos sob esmalte vítreo. Esta combinação formal e técnica permite hoje a identificação estilística de peças atribuídas à fábrica, apesar de serem extremamente raros os exemplares marcados. Com efeito, é conhecida apenas uma peça assinada, utilizada por José Queirós e, posteriormente, por Artur de Sandão como base para comparações estilísticas que permitiram a atribuição de obras não assinadas; Queirós identificou como elementos característicos duas molduras decorativas, usadas isoladamente ou em conjunto.
A atividade da fábrica terá cessado por volta de 1820, aparentemente na sequência de um incêndio, e em 1824 já não figurava nos mapas estatísticos das fábricas do reino. As peças atribuídas à Real Fábrica da Bica do Sapato são hoje raras e altamente valorizadas, constituindo referência fundamental para o estudo da cerâmica portuguesa dos finais do século XVIII e inícios do XIX.
PEDRO PASCOAL DE MELO / PGRA (Janeiro, 2026)
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