Fundada em 1767, a Real Fábrica de Louça do Rato destacou-se como um dos principais centros de produção cerâmica portugueses do século XVIII. Criada no contexto das políticas de modernização promovidas por Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.º marquês de Pombal (1699-1782), com o objetivo de dinamizar a economia do reino e afirmar uma produção manufatureira nacional capaz de competir com importações estrangeiras, a fábrica foi instalada junto à Real Fábrica das Sedas, no sítio do Rato, em Lisboa, integrando um polo industrial de iniciativa régia. Sob a direção inicial do mestre italiano Tomás Brunetto, entre 1767 e 1771, a instituição concentrou-se na experimentação de moldes, esmaltes e técnicas, estabelecendo elevados padrões de qualidade, inovação e rigor formal que marcaram os primeiros anos da sua atividade.
A etapa seguinte, atribuída ao modelador Severino José da Silva, circa 1771-1772, caracterizou-se pela produção de peças brancas vidradas de elevada qualidade, representando um momento de refinamento técnico e artístico que consolidou a reputação da fábrica. Entre 1772 e 1779, sob a direção de Sebastião Inácio de Almeida, a manufatura estabilizou-se, com menor diversidade decorativa e maior atenção à qualidade técnica, destacando-se a produção de serviços de mesa em tons azuis. É também neste período que se inicia a produção de azulejos, atividade que se tornaria uma das principais marcas da fábrica, com encomendas destinadas à corte portuguesa e ao mercado brasileiro.
De 1780 a 1816, sob João Inácio Botelho de Almeida, a fábrica atingiu estabilidade comercial e prestígio artístico, produzindo faianças e azulejos com decorações distintivas, incluindo as conhecidas “decorações Pelliment”, bem como elementos ornamentais para estufas e jardins, executados sob encomenda. Nos últimos anos desta direção surgiram tensões internas, quando Joaquim Rodrigues Milagres criou uma linha de produção paralela, provocando disputas administrativas e artísticas que afetaram a coerência da produção.
No período tardio da fábrica, entre 1816 e 1835, diversos mestres procuraram relançar a produção, introduzindo e consolidando a louça em “pó‑de‑pedra”, material que possibilitava modelações mais complexas e peças mais leves e resistentes. Entre 1818 e 1824, Alexandre António Vandelli esteve na fábrica, contribuindo para a pintura e a decoração das peças, reforçando a qualidade técnica e artística das faianças produzidas nesse período tardio. Em 27 de fevereiro de 1829, o brigadeiro Francisco António Raposo foi encarregado da administração e da modernização da fábrica, promovendo melhorias nos processos produtivos. Apesar destas iniciativas, a instituição enfrentou dificuldades comerciais persistentes e encerrou definitivamente em 1835, concluindo um ciclo de quase sete décadas de produção cerâmica de reconhecido valor histórico e artístico.
Para além da vertente produtiva, a Real Fábrica de Louça do Rato manteve-se como um centro fundamental de ensino e formação, funcionando como verdadeira escola de desenho, modelação e pintura de faiança. Ao longo das décadas, a fábrica formou gerações de pintores e ceramistas, transmitindo técnicas, estilos e saberes que influenciaram decisivamente a evolução da faiança e da azulejaria portuguesas. Esta dimensão educativa permitiu que a instituição não se limitasse à produção de objetos utilitários ou decorativos, mas se afirmasse como um núcleo de excelência técnica e artística, cujo legado se refletiu na continuidade da tradição cerâmica em Portugal.
PEDRO PASCOAL DE MELO (Janeiro, 2024)
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