O conjunto de oficinas de faiança identificado pela historiografia como “Monte Sinai” constitui um dos mais relevantes núcleos produtivos da cerâmica lisboeta entre os finais do século XVII e o início do século XVIII. A designação foi proposta por José Queirós (1856-1920), tomando como referência o antigo comoro de Santa Catarina, onde se concentravam diversas olarias situadas nas atuais áreas de Santos‑o‑Velho e Santa Catarina. Segundo o autor, estas produções apresentavam características formais e tecnológicas suficientemente homogéneas para justificar a criação de uma categoria tipológica própria no estudo da faiança lisboeta.
As olarias desta zona desenvolveram um processo produtivo tecnicamente exigente e adaptado ao contexto urbano e económico da época. A investigação arqueológica conduzida na Rua das Madres (Santos‑o‑Velho) permitiu identificar todas as fases do fabrico, desde a modelação das peças em chacota até à aplicação do vidrado e cozedura final. A proximidade ao estuário do Tejo facilitava o acesso a matérias‑primas e a circulação de mercadorias, contribuindo para a afirmação da área como um importante centro oleiro integrado num bairro densamente marcado por atividades artesanais.
As escavações realizadas na Rua de Buenos Aires forneceram dados adicionais sobre o funcionamento das oficinas, incluindo fossas de extração de argila e extensos conjuntos de rejeitados de produção. Estes vestígios documentam práticas tecnológicas avançadas, como o uso de louça fosca vermelha no processo de preparação dos vidrados, e revelam a existência de uma organização oficinal que seguia normas municipais relativas ao uso do subsolo e ao tratamento de resíduos. Os dados arqueológicos revelam ainda que esta produção se destinava essencialmente às elites, uma vez que os exemplares são maioritariamente recuperados em contextos palatinos e conventuais, numa fase em que, de um modo geral, a produção de faiança portuguesa caracteriza-se por um certo declínio técnico e decorativo. Estes elementos contribuem para consolidar a identificação da zona do Monte Sinai como um polo especializado na produção de faiança durante os séculos XVII e XVIII.
No plano artístico e decorativo, as produções atribuíveis ao núcleo do Monte Sinai inserem‑se na evolução mais vasta da faiança portuguesa, marcada pela incorporação de influências flamengas, italianas e orientais a partir do século XVI. Investigações recentes demonstram a centralidade de Lisboa enquanto local de inovação formal e técnica, orientando a criação de modelos decorativos originais que alcançaram projeção nas redes comerciais europeias e atlânticas. A análise sistemática de coleções e de contextos arqueológicos tem permitido clarificar atribuições, reforçar critérios tipológicos e compreender o papel que estas oficinas desempenharam na afirmação da faiança portuguesa no período moderno.
O interesse renovado por estas produções, evidenciado por estudos e exposições recentes, tem contribuído para situar a faiança lisboeta seiscentista, e em particular as peças provenientes do núcleo do Monte Sinai, no quadro mais amplo do património cerâmico europeu. A sua qualidade técnica, a diversidade decorativa e a relevância histórica reforçam a importância destas oficinas na caracterização da produção cerâmica da Lisboa pré‑pombalina.
PEDRO PASCOAL DE MELO / PGRA e JOÃO GONÇALVES ARAÚJO / DRAC (Fevereiro, 2026)
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