ARCA

Arca (ES)
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箱 (JP)
Mobiliário
Açores, Portugal
- Produtor

Título Alternativo:
Caixa
Descrição:
Arca com decoração incisa. Móvel de conter, em madeira de cedro-do-mato. Produção açoriana, circa 1550-1650.

Arca de formato paralelepipédico, composto por uma caixa-recetáculo encerrada por tampa plana articulada, com decoração incisa. Executado em cedro-do-mato — Juniperus brevifolia (Seub.) Antoine —, madeira endémica dos Açores. A caixa apresenta malhetes laterais visíveis e o interior é composto por um único compartimento, com um escaninho lateral que já não possui a tampa original, a qual também servia como anteparo para a tampa principal quando aberta. Esta, justaposta à estrutura e com batentes salientes nos topos menores — que impedem movimentos deslizantes — articula-se à caixa por meio de dobradiças em ferro forjado, as quais substituíram os engonços originais (cuja presença é testemunhada pelas marcas deixadas na madeira). A decoração incisa, com sulcos preenchidos por massa negra (possivelmente cera escurecida com noz de galha), distribui-se na frente, organizada em painéis de composição poligonal. Nos três painéis centrais surgem estruturas arquitetónicas inseridas em arcos, sobre um fundo axadrezado; no painel central destaca-se um ramo de papoilas, enquanto nos laterais figuram um galgo e um dragão. Elementos fitomórficos diversos adornam toda a composição. Apresenta fechadura, com chave, adicionada em momento posterior.

Quanto à decoração, e admitindo como hipótese que o móvel em causa tenha sido concebido como arca de casamento, pode sugerir-se que os símbolos da papoila, do galgo e do dragão se articulam num programa iconográfico associado aos valores do matrimónio e da vida conjugal nos séculos XVI e XVII. Objetos desta natureza, frequentemente ligados à constituição de um novo agregado familiar e à guarda do enxoval, recorriam não raras vezes a repertórios decorativos portadores de significados simbólicos relacionados com estabilidade, continuidade e virtude. Neste contexto, a papoila poderá remeter para o carácter transitório da juventude, da beleza e da própria condição humana, evocando o casamento como vínculo de permanência e renovação. O galgo, presença recorrente na iconografia matrimonial europeia, surge como emblema de fidelidade, lealdade e constância entre os cônjuges, qualidades essenciais à harmonia da união. Já o dragão poderá assumir um valor protetor, associado à força, à vigilância e à salvaguarda da casa e da família. Em conjunto, estes elementos podem ser interpretados como uma alegoria das qualidades desejáveis à união matrimonial, articulando permanência perante a transitoriedade da vida, fidelidade conjugal e proteção do novo núcleo familiar.

Ao evocar os Açores dos séculos XVI e XVII, tende a destacar-se o papel estratégico do arquipélago nas rotas atlânticas e no sistema comercial da expansão portuguesa. Paralelamente a essa dimensão marítima, as ilhas afirmaram-se também como um importante centro de produção artística, distinguindo-se particularmente no domínio da marcenaria. A produção de mobiliário em cedro-do-mato conheceu um desenvolvimento significativo neste período, destacando-se pela sua fineza técnica e formal, que se insere de maneira singular na tradição luso-atlântica. A valorização desta madeira resultava das suas qualidades físicas e sensoriais — resistência, durabilidade, estabilidade e propriedades conservadoras —, tornando-a especialmente adequada ao fabrico de peças destinadas tanto ao uso doméstico como à circulação para outros territórios. As fontes históricas testemunham a importância desta atividade, sobretudo na cidade de Angra, na ilha Terceira, onde parece ter existido uma produção especializada. É sobretudo o cronista Gaspar Frutuoso, na obra Saudades da Terra, quem descreve a abundância das matas açorianas e refere explicitamente o fabrico de móveis de grande qualidade executados em cedro e enviados para diferentes regiões da Europa. Deste contexto sobreviveram diversas tipologias – arcas, contadores, escritórios, armários, mesas, cadeiras e pequenos móveis de estrado, designados escabelos – que revelam elevado domínio construtivo e apurado sentido decorativo. Muitos exemplares apresentam ornamentação incisa ou embutida, evidenciando o saber técnico dos artífices locais e o papel destes objetos enquanto marcadores de estatuto, espaços de guarda de bens preciosos e expressão do gosto, das práticas quotidianas e das formas de representação social, tanto no contexto insular como nos territórios para onde circularam. Entre estas produções, a arca ocupou lugar central. Uma das formas mais antigas de mobiliário de armazenamento, destinava-se à conservação de vestuário, têxteis, serviços domésticos e objetos de valor. Quando executada em cedro-do-mato, beneficiava das propriedades naturais da madeira, nomeadamente resistência à humidade, proteção contra insetos e um aroma característico que favorecia a preservação do conteúdo. A sua mobilidade tornava-a igualmente adequada ao transporte de pertences, mantendo-se como principal solução de armazenamento até meados do século XVII, momento em que começou gradualmente a ser substituída por estruturas de organização interior mais especializadas.
PEDRO PASCOAL DE MELO / PGRA (Junho, 2026)

Bibliografia consultada:
  • DIAS, Pedro  “O fabrico de mobiliário na ilha Terceira, no século XVI”, in Manuelino: a descoberta da Arte do tempo de D. Manuel I. Lisboa: Museu sem Fronteiras, 2002, DIAS, Pedro. “O mobiliário”, in Açores [col. Arte de Portugal no Mundo; 3]. [Lisboa]: Público, 2008, pp. 133-141.
  • FELGUEIRAS, José J. G. Jordão  “A propósito de uma curiosa arca”, in Revista Arte e Leilões, n.º 16 (Lisboa; outubro, 1996), pp. 57-60.
  • FELGUEIRAS, José J. G. Jordão  “O desconhecido mobiliário açoreano do Século de Ouro. a propósito do despropósito contador de Argote”, in Revista Museu, IV série, nº 11 (Porto; 2002), pp.77-99.
  • FERRÃO, Bernardo  Mobiliário português: dos primórdios ao Renascimento, vol. IV. Porto: Lello & Irmão, 1990.
  • FRUTUOSO, Gaspar  Saudades da Terra, 6 vols. Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2011.
  • GREGÓRIO, Rute Dias  Terra e fortuna nos primórdios da ilha Terceira (1450-1550) [teses de doutoramento]. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 2006.
  • LINSCHOTEN, Jan Huygen van; POS, Aris (ed. lit.); WU, Zhiliang (ed. lit.)  Itinerário, viagem ou navegação para as Índias Orientais portuguesas. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.
  • MARTINS, Francisco Ernesto de Oliveira  “Mobiliário açoriano da época do cedro nos ambientes açorianos”, in F. E. O. Martins, Ambientes açorianos: da época dos descobrimentos à das viagens e da emigração. Ponta Delgada: Signo, 1992, p. 189.
  • SILVESTRE, Hélder Alexandre Carita  “O mobiliário açoriano: entre os séculos XVII e XIX”, in V. Serrão, J. V. Caldas, & D. Sardo (eds.), História da Arte nos Açores (c.1427-2000). [Angra do Heroísmo]: Direção Regional da Cultura, 2018, pp. 527-541.

Dimensões:
Totais : A. 55 x C. 134,5 x L. 55,5 cm
Nº de Inventário:
PGRA-PC0071
Data de produção:
circa 1550 - 1650
Material e técnicas
Estrutura: cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) | Ferragens e fecharia: ferro - Estrutura: ensamblada; incisa | Ferragens e fecharia: forjadas; recortadas

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