CRISTO CRUCIFICADO
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CRISTO CRUCIFICADO

Cristo crucificado [ES]
Crucified Christ [EN]
Christ crucifié [FR]
Der gekreuzigte Christus [DE]
十字架上のキリスト [JP]
Arte Sacra
Oficina cíngalo-portuguesa
- Produtor

Descrição:
Representação de Cristo crucificado em marfim. Escultura religiosa. Produção cíngalo-portuguesa, não marcada, circa 1540-1658.

Escultura em marfim, entalhado e polido. Figura Jesus Cristo, crucificado e morto,  evidenciando um marcado naturalismo na definição anatómica. A cabeça inclina‑se ligeiramente para a direita e apresenta feições de influência asiática, com rosto sereno, alongado, testa arredondada, olhos cerrados, nariz afilado e boca pequena. Os cabelos, repartidos ao meio, são lavrados em sulcos finos e lisos, caindo sobre as costas e sobre o ombro direito; a barba é bipartida. Na nuca existe um orifício destinado à colocação de resplendor. O tronco evidencia musculatura seca e ossatura visível. A caixa torácica evidencia o recorte das costelas, enquanto na parte posterior a coluna é indicada pelas apófises posteriores das vértebras. No peito observa‑se a ferida da lançada. Os braços e as pernas são esguios e proporcionados, com ligeira flexão das pernas. As mãos e os pés mostram um trabalho minucioso, com definição das articulações e unhas; nos pés, observa‑se o cruzamento característico da posição na cruz. A figura veste um cendal, trabalhado com pregas paralelas, preso sobre a anca direita por um nó do qual caem pontas em volutas, claramente visíveis no entalhe. Conservam‑se vestígios de policromia nos cabelos e na barba, enquanto no corpo subsistem apenas marcas de sangue, nomeadamente na zona do pescoço, na chaga do peito e sobre o pé esquerdo. A escultura é composta por três partes – o corpo com as pernas e os dois braços – fixadas ao tronco por cavilhas em marfim, visíveis pelos encaixes discretos. Os cravos que fixam a figura são em prata. A cruz é muito simples, construída em madeira escura de sissó, formada por duas peças encaixadas, de superfície lisa. No verso, possui uma argola metálica que permite a sua suspensão.

As características formais e técnicas desta obra situam‑na no âmbito da produção cíngalo‑portuguesa, desenvolvida no antigo Ceilão (atual Sri Lanka) durante o período da presença portuguesa, entre cerca de 1540 e 1658, ano em que o controlo da ilha transitou para os holandeses. A modelação delgada, o tratamento linear do cabelo, o desenho do cendal e o modo de entalhar o marfim aproximam‑se das peças executadas por artesãos locais após o contacto com missionários e com modelos europeus trazidos nas primeiras armadas portuguesas ao Oriente, muitos ainda de tradição tardo‑gótica. Os escultores cingaleses copiaram, adaptaram ou reinterpretaram esses protótipos, incorporando técnicas, materiais e sensibilidades próprias da sua cultura visual.

A presença portuguesa no Ceilão teve início em 1506, com o estabelecimento de alianças com o Reino de Kotte, na região da atual Colombo. Ao longo de cerca de século e meio, os portugueses construíram feitorias, fortalezas e redes comerciais, intervindo também na política interna dos reinos locais. Esse período foi marcado por significativo dinamismo económico e cultural: à semelhança do que sucedera na África Oriental e na Índia, também os artesãos cingaleses começaram a produzir objetos destinados ao mercado português. De Colombo e de outras feitorias foram enviados, para Lisboa e para várias cortes europeias, cofres de marfim, cristais de rocha com montagens preciosas e outras obras de luxo que testemunham o florescimento artístico da ilha.

Neste contexto, as esculturas cristãs em marfim emergiram como um dos núcleos mais representativos da produção local. Inicialmente sob a orientação das missões, os artesãos cingaleses estudaram e copiaram os modelos europeus, reinterpretando‑os com materiais, proporções e soluções formais próprias. Assim se consolidou uma linguagem híbrida, em que a iconografia cristã ocidental se combina com elementos da estética e dos cânones artísticos do Ceilão. A difusão destas imagens cristãs não pode dissociar‑se das recomendações contrarreformistas. A partir do século XVI, o Concílio de Trento reafirmou a função da imagem como instrumento de instrução e defesa do dogma, influenciando profundamente a representação da Crucificação. No âmbito do marfim luso‑asiático, essa normativa contribuiu para a estabilização de dois tipos principais de Cristo crucificado: o Cristo vivo, com os olhos erguidos para o céu e o cabelo repartido em madeixas simétricas; e o Cristo morto, de olhos cerrados, cabeça inclinada e cabelo caído para um só lado tipologia a que esta escultura pertence.

A obra constitui, assim, um testemunho exemplar da síntese artística cíngalo‑portuguesa: um diálogo constante entre protótipo ocidental, técnica local e os princípios estéticos difundidos no período pós‑tridentino.
PEDRO PASCOAL DE MELO / PGRA (Fevereiro, 2026)

Bibliografia consultada:
  • BAILEY, Gauvin Alexander; MASSING, Jean Michel; SILVA, Nuno Vassalo e. Marfins no Império Português = Ivories in the Portuguese Empire. Lisboa: Scribe, 2013.
  • COMISSÃO Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (org.). A Expansão Portuguesa e a Arte do Marfim [Catálogo de Exposição]. Lisboa: Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, 1991.
  • DIAS, Pedro. A arte do marfim: o mundo onde os portugueses chegaram. Porto: V.O.C. Antiguidades, 2004.
  • LIMA, Isabel Pires de [et al.]. Encompassing the Globe: Portugal and the world in the 16th and 17th centuries [Catálogo de Exposição]. Washington: Arthur M. Sackler Gallery, Smithsonian Institution, 2007.
  • SILVA, Maria Madalena de Cagical e. A Arte Indo-Portuguesa. [Lisboa]: Excelsior, 1966.
  • TÁVORA, Bernardo Ferrão de Tavares e. Imaginária luso-oriental. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.

Dimensões:
Totais : A. 52 x L. 30,6 x P. 7 cm
Nº de Inventário:
PGRA-PS0999
Data de produção:
circa 1540 - 1658
Material e técnicas
[Cristo] Marfim de elefante - Talhado, polido e policromado
[Cruz] Madeira de sissó - Ensamblada
[Cravos] Prata - Fundida
Incorporação:
Adquirido em 1985, durante a vigência do III Governo dos Açores (1984-1988), ao antiquário e colecionador Eduardo Rangel Pamplona Silvano (1924-1999). Integra desde então as coleções da Presidência do Governo dos Açores, estando em exposição no Palácio de Sant'Ana, em Ponta Delgada.

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