Augusto Luís de Sousa (1851-1927) nasceu em Lisboa, na freguesia de São Miguel de Alfama, a 11 de fevereiro, sendo batizado em 23 do mesmo mês. Era filho de Manuel António de Sousa, cordoeiro natural de Braga, e de Letícia Augusta Cordeiro. Viveu na Rua de São Pedro, artéria situada na zona de Alfama, nas imediações da sua freguesia natal, integrada num tecido urbano marcado por uma forte tradição artesanal. Casou-se a 7 de setembro de 1884 com Augusta de Jesus, em Castanheira do Ribatejo, e faleceu a 18 de fevereiro de 1927, na freguesia das Mercês, em Lisboa.
Pouco se conhece sobre a sua formação inicial, não sendo documentados com precisão os mestres ou oficinas onde terá aprendido o ofício. Ainda assim, no final do século XIX já se encontrava plenamente inserido na ourivesaria lisboeta, revelando domínio técnico e maturidade artística que indicam sólida aprendizagem. Nesse contexto, passou a trabalhar na Casa Leitão & Irmão, uma das mais prestigiadas oficinas de Lisboa, fundada em 1822, reconhecida pela competência dos seus mestres e pelo fornecimento de peças a clientes de elite. Esta experiência proporcionou-lhe um ambiente de excelência técnica e rigor artístico, essencial para o desenvolvimento do seu estilo.
Durante essa colaboração, que se prolongou pelas primeiras décadas do século XX, mesmo após fundar a sua própria oficina, Augusto Luís de Sousa produziu algumas das suas obras mais importantes: o magnífico serviço de chá e café Vila Flor (1900), o imponente Cofre Ernesto Hintze Ribeiro (1901) e a famosa Baixela Barahona (1908), concebida segundo desenho de Rafael Bordalo Pinheiro. Estas peças evidenciam elevado nível técnico e sofisticação ornamental, posicionando-se entre os melhores exemplos da ourivesaria artística portuguesa do período.
A produção de Augusto Luís de Sousa insere-se num contexto de revivalismo histórico, marcado sobretudo pela conjugação do neomanuelino e do gosto joanino. O neomanuelino retoma referências ao reinado de D. Manuel I, integrando motivos marítimos, cordas, esferas armilares, cruzes e elementos vegetalistas, enquanto o gosto joanino, associado ao barroco português do reinado de D. João V, se manifesta através da exuberância decorativa, da simetria compositiva e da reinterpretação elaborada de elementos clássicos. Esta combinação estilística enquadra-se no romantismo nacionalista que caracterizou as artes decorativas portuguesas entre o final do século XIX e o início do século XX, valorizando a memória histórica e a identidade cultural.
Com o incentivo e apoio da Casa Leitão & Irmão, Augusto Luís de Sousa estabeleceu a sua própria oficina em Lisboa, na Travessa Guilherme Cossoul (antiga Travessa do Sequeiro das Chagas), n.º 18. A Casa Augusto Luís de Sousa rapidamente se afirmou como um dos principais centros de ourivesaria artística da capital, destacando-se pela excelência nas técnicas de repuxo, modelação e cinzeladura, bem como pela sofisticação decorativa das peças produzidas. Ao longo da sua atividade, a oficina contou com a colaboração de ilustres arquitetos e artistas, como Raul Lino, Luís Benavente e António Alves de Sousa, que contribuíram para o desenho e a conceção de peças, fortalecendo o prestígio da casa e ampliando o diálogo entre a ourivesaria e outras artes decorativas. Após o falecimento do fundador, a oficina foi reorganizada como Augusto Luís de Sousa Lda., assegurando a continuidade da marca e do prestígio da casa. A direção do negócio foi assumida por Angélico José de Sousa (1892–1959), filho do ourives, garantindo a transmissão do saber técnico e artístico no seio da família.
A atividade de Augusto Luís de Sousa encontra-se documentada pela marca de ourives de Lisboa que utilizou, registada em 1887, composta pela letra “A” sobreposta a uma tenaz. Este elemento identificativo assegurava a autoria, a legalidade e a qualidade técnica das peças produzidas, constituindo um testemunho fundamental da sua produção e da organização profissional da oficina.
O reconhecimento da obra de Augusto Luís de Sousa ultrapassou o contexto nacional. Em 1927, peças do seu atelier foram apresentadas na exposição Ourivesaria Portuguesa: 1.ª Exposição de Pratas dos Lavrantes de Augusto Luís de Sousa, no Círculo de Belas Artes, em Madrid. Em 1929, participou na Exposição Ibero-Americana de Sevilha com expositor próprio, presença registada na publicação oficial Exposição Portuguesa em Sevilha. Posteriormente, trabalhos da oficina foram distinguidos na Grande Exposição Industrial Portuguesa, realizada em Lisboa em 1932 e 1933. Atualmente, as suas obras integram importantes coleções públicas e privadas, constituindo testemunhos duradouros da excelência da ourivesaria portuguesa do seu tempo.
PEDRO PASCOAL DE MELO (Dezembro, 2025)
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