COFRE "HINTZE RIBEIRO"
COFRE "HINTZE RIBEIRO"
COFRE "HINTZE RIBEIRO"
COFRE "HINTZE RIBEIRO"

COFRE "HINTZE RIBEIRO"

Cofre "Hintze Ribeiro" [ES]
"Hintze Ribeiro" casket [EN]
Coffret "Hintze Ribeiro" [FR]
Kästchen "Hintze Ribeiro" [DE]
ヒンツェ・リベイロの金庫 [JP]
Artes Decorativas e aplicadas
Casa Leitão & Irmão
- Produtor

Augusto Luís de Sousa
- Autor

Título Alternativo:
Cofre "Açor"
Cofre de cidadania
Descrição:
Cofre de cidadania em prata, esmalte vítreo policromado, dourado a ouro (interior) e base em madeira de ébano. Objeto honorífico. Produção portuguesa da Casa Leitão & Irmão, cinzelada por Augusto Luís de Sousa, de 1901.

Cofre de cidadania oferecido a Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro (1849-1907), executado em prata com aplicações de esmalte vítreo policromado, interior dourado a ouro e base de madeira de ébano. Produzido pela Casa Leitão & Irmão em 1901, com cinzelado do mestre ourives Augusto Luís de Sousa (1851-1927), distingue-se pelo elevado rigor técnico e caráter solene, próprio de objetos honoríficos de prestígio. Apresenta formato piramidal octogonal, com tampa articulada, e decoração revivalista de inspiração neogótica, enriquecida por elementos da estética manuelina — variante portuguesa do gótico tardio — visíveis em arcarias ogivais, colunelos, frisos vegetalistas e remates arquitetónicos. A ornamentação organiza-se em painéis moldurados que integram epígrafes honoríficas, peças heráldicas e outros motivos figurativos, organizados de modo a dialogar harmoniosamente com a estrutura geral do cofre e ressaltar seu caráter cerimonial e comemorativo.

O programa decorativo do cofre inscreve-se no contexto do romantismo português do final do século XIX, marcado por um historicismo de matriz patriótica e carregado de significados simbólicos e ideológicos. Esse contexto consolidou-se a partir das grandes celebrações históricas e culturais da época, como o tricentenário da morte de Camões, em 1880 — evocando a gesta marítima e a viagem de Vasco da Gama à Índia —, e o IV Centenário do nascimento do Infante D. Henrique, em 1894, consolidando-se também na sequência do Ultimato Inglês de 1890. Dentro desse quadro, a ornamentação transcende a função meramente decorativa, assumindo-se como uma linguagem visual de afirmação identitária e cívica, profundamente enraizada na evocação do passado histórico e na construção de memória coletiva.

As epígrafes honoríficas do cofre explicitam de forma clara seu caráter comemorativo e cerimonial, dedicando-o ao homenageado com as palavras: “Ao Ill.mo e Ex.mo Snr. / Conselheiro de Estado / Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro / Presidente do Conselho de Ministros na sua / Visita à Ilha de S. Miguel / em Julho de 1901 / um grupo de conterrâneos amigos e admiradores”. Além disso, registram-se os cargos e datas exercidos pelo homenageado, refletindo sua trajetória política e cívica: Chefe do Partido Regenerador (1900), Presidente do Conselho de Ministros (1893 e 1900), Par do Reino (1885), Ministro dos Estrangeiros (1890), Ministro do Reino (1900), Ministro da Fazenda (1883 e 1893), Ministro das Obras Públicas (1881), Deputado (3-11-1898) e Conselheiro de Estado (1891).

A face frontal e as seis faces laterais exibem brasões em esmalte policromado, executados na técnica de champlevé. Na face frontal figuram as armas da família Ribeiro, esquarteladas e encimadas por uma coroa de Marquês — embora Hintze Ribeiro não possuísse oficialmente o título, recebendo apenas o tratamento e honras associadas a ele. As armas são ladeadas pelas condecorações nacionais e estrangeiras que lhe foram atribuídas, incluindo as ordens de Cristo, da Torre e Espada, do Leão Neerlandês, dos Santos Maurício e Lázaro, de Leopoldo, da Legião de Honra, de Carlos III, da Águia Vermelha e de Santo Alexandre Nevsky. Nas faces laterais encontram-se os brasões dos seis municípios da ilha de São Miguel — Ribeira Grande, Nordeste, Vila Franca do Campo, Lagoa, Povoação e Ponta Delgada — enquanto a face posterior distingue-se por uma placa em baixo-relevo alusiva ao doutoramento em Direito de Hintze Ribeiro pela Universidade de Coimbra. Nela, a alegoria da Justiça, segundo a tradição iconográfica oitocentista, é representada com capelo académico sobre livro e filactera contendo a data da obtenção do grau, 14 de julho de 1872.

A tampa é encimada por um açor de asas abertas, em vulto pleno de prata, pousado sobre base ornamentada, aludindo à origem açoriana do homenageado — circunstância que dá à obra a designação ocasional de “Cofre Açor”. O interior é dourado e adornado com gravações geométricas, conferindo à peça sofisticação e riqueza ornamental. O conjunto repousa sobre oito grifos que servem de pés, apoiando-se no embasamento de madeira de ébano, enriquecido com inscrições e leis de Hintze Ribeiro relativas aos Açores, incluindo medidas sobre impostos, navegação, cultura do tabaco, caminhos de ferro, telégrafo, autonomia administrativa e postos meteorológicos. Esses elementos estão integrados ao programa ornamental, reforçando a dimensão simbólica e representativa da peça.

No interior do cofre, no fundo do compartimento, encontra-se a inscrição “Leitão & Irmão / Lisboa”, acompanhada da punção de contraste de Lisboa (“Javali”), em uso entre 1887 e 1937 para prata de 916/1000, e da punção de responsabilidade da casa, representada por uma esfinge estilizada sobre a letra “L”. Estas marcas repetem-se em diferentes elementos constitutivos da peça. Na parte posterior do embasamento do açor observa-se ainda a inscrição do cinzelador — “Aug.to L. / de Souza / cinz.u 1901” —, confirmando a autoria da execução.

A documentação da Casa Leitão & Irmão permite reconstruir, em parte, o processo de encomenda e execução do cofre, complementando seus dados materiais. Um livro de artigos da oficina de prata, relativo a 1899-1901, apresenta um lançamento datado de 15 de junho de 1901 — provavelmente a data de conclusão — com número de ordem 9 e registo 65, em que o objeto é identificado como “Cofre Açor e guarnição Base”, pesando 8.916 gramas e o valor de 498.000 réis. Esta quantia poderá corresponder a uma última tranche do pagamento, já que jornais da época indicam um custo total aproximado de 2 contos de réis. O lançamento evidencia a dimensão, a qualidade e a complexidade técnica do cofre, situando-o entre os mais valiosos produzidos pela oficina naquele ano. Uma nota marginal indica que a execução exigiu pelo menos 970 horas de trabalho, resultado de cerca de dois anos de conceção e manufatura, refletindo o rigor artesanal e o investimento em mão de obra especializada. Desenhos aguarelados preparatórios e fotografias anteriores à entrega completam o testemunho do percurso de realização do cofre.

No verão de 1901, por ocasião da visita dos Reis D. Carlos I e D. Amélia à Madeira e aos Açores, Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro acompanhou a deslocação régia e foi alvo de manifestações de apreço que refletiam o seu prestígio, especialmente na sua terra natal. Nesse contexto, insere-se a oferta do cofre por um grupo de conterrâneos. Entre os maiores subscritores da iniciativa, com contribuições de 100$000 réis cada, destacavam-se Augusto de Ataíde Corte Real da Silveira Estrela, José Bento de Arruda Coutinho Soares de Albergaria Botelho de Gusmão (Conde do Botelho), Manuel Jacinto Lopes (Visconde da Palmeira) e Manuel Rebelo Borges de Castro da Câmara Lemos (Conde de Santa Catarina). Seguiam-se Amâncio Silveira Gago da Câmara (futuro Conde dos Fenais) e João Lourenço da Silva, com 50$000 réis cada, António Carlos de Mendonça, com 40$000 réis, e António José Machado e António Moreira da Câmara Coutinho, com 30$000 réis, entre outros. No âmbito destas homenagens, foi  ainda descerrada uma lápide no edifício onde nascera, em Ponta Delgada, com a inscrição: "Casa onde nasceu Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro em VII de Novembro de MDCCCXLIX", na rua que já ostentava o seu nome, perpetuando a memória do político na cidade.

Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro (Ponta Delgada, 7 de novembro de 1849 - Lisboa, 1 de agosto de 1907) foi um dos mais relevantes estadistas portugueses do final do século XIX e início do XX. Natural da ilha de São Miguel, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, onde obteve o doutoramento e o capelo, desenvolvendo uma carreira política e jurídica marcada pelo exercício de altos cargos no Estado: deputado, par do Reino, procurador-geral da Coroa, conselheiro de Estado e ministro das Obras Públicas, das Finanças e dos Negócios Estrangeiros. Figura de relevo do Partido Regenerador, exerceu por três vezes o cargo de Presidente do Conselho de Ministros (1893-1897, 1900-1904 e 1906), destacando-se como protagonista central da vida política do regime monárquico constitucional. Durante a sua governação, esteve diretamente envolvido na promulgação do Decreto de 2 de março de 1895, que instituiu a autonomia administrativa e criou os distritos nos Açores, consolidando a organização política do arquipélago e reforçando a ligação institucional à administração central.

Os cofres de cidadania constituíam presentes cerimoniais destinados a figuras de relevo, assumindo função de homenagem cívica, reconhecimento público ou atribuição simbólica de cidadania honorária. Para além do valor simbólico, eram expressão de prestígio social e legitimação política, inserindo-se numa tradição internacional de ofertas a governantes e dignitários. Executados geralmente em prata, ouro ou bronze, exibiam decoração heráldica, escultórica ou figurativa, conjugando simbolismo e excelência técnica. Entre os exemplares portugueses mais notáveis destaca-se o cofre oferecido ao Príncipe Real D. Luís Filipe, em 1907, pelos representantes da agricultura, comércio e indústria de Angola, durante visita oficial às colónias africanas. Produzido também pela Casa Leitão & Irmão, distingue-se pelo cinzelado refinado: as arestas apresentam representações dos povos de Angola, a peça assenta sobre quatro rinocerontes e o topo é formado por quatro presas de marfim convergentes, encimadas pela Coroa Real, conferindo-lhe elevado valor simbólico e caráter cerimonial. O cofre de Hintze Ribeiro insere-se nesta tradição de excelência e prestígio.
PEDRO PASCOAL DE MELO (Dezembro, 2024)

Bibliografia consultada:
  • AAVV. "Comemoração do centenário da morte do Conselheiro Hintze Ribeiro", in [Revista] Insulana: Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, Vol. LXIII (2007), pp. 3-94 [Disponível em: insulana_v.063 (2007)_texto.pdf. Acesso em: 2 dez 2025].
  • ARQUIVO Leitão & Irmão. Encomendas de Prata, [Livro de registo de artigos produzidos na] oficina da Prata [relativas a], 1899-1901. [ELI-460, folio não numerado. Arquivo depositado na Biblioteca e Arquivo da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa].
  • CABRAL, Henrique Álvares. Desígnios legais para a classificação de um bem móvel [o Cofre Hintze Ribeiro] como Património Cultural: uma possível proposta [Trabalho académico apresentado no âmbito da mestrado em Património, Museologia e Desenvolvimento]. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 2006.
  • CARREIRO, José Bruno. "Hintze Ribeiro - Homenagem à memória do Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, no centenário do seu nascimento", in [Revista] Insulana: Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, Vol. V, N.º 3 e 4 (1949), pp. 166-202. 
  • CLUNY, Isabel. Ernesto Hintze Ribeiro: Uma biografia política (1849-1907). Lisboa: Assembleia da República, 2018.
  • [JORNAL] A Persuasão, A. 40, N.º 2064 (1901-08-07).
  • [JORNAL] Diário dos Açores, A. 31, N.º 3085 (1901-07-29).
  • LEITE, José Guilherme Reis. "Ribeiro, Ernesto Rudolfo Hintze", in Enciclopédia Açoriana [Repertório eletrónico]. Direção Regional da Cultura [Disponível em: Enciclopédia Açoriana. Acesso em: 2 dez 2025].
  • LOUREIRO, Augusto. Conselheiro E. R. Hintze Ribeiro: memória da sua visita à ilha de S. Miguel em Julho de 1901. Ponta Delgada: Typo-Lyt. a vapor de Ferreira & C.ª, 1901.
  • [REVISTA] O Ocidente: revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, N.º 812 (20 jul. 1901).
  • SILVA, Susana Serpa. "Em torno da visita régia de 1901 aos arquipélagos da Madeira e dos Açores, in [Revista] Arquipélago-História, V. XIII (2009), pp. 157-176.

Dimensões:
Totais : A. 45 x L. 55 x P. 45 cm
Nº de Inventário:
PGRA-PS0269
Data de produção:
1901
Material e técnicas
Prata - Fundida, cinzelada, relevada, gravada e dourada
Esmalte vítreo policromado - Esmaltação vítrea (champlevé)
Madeira (base estrutural) - Ensamblada
Incorporação:
Peça adquirida em 2013, durante a vigência do XI Governo Regional dos Açores (2012–2016), integrando as coleções da Presidência do Governo dos Açores. Habitualmente exposta no Palácio de Sant’Ana, em Ponta Delgada, encontra-se temporariamente cedida ao Núcleo da Autonomia dos Açores do Museu Carlos Machado.

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