SECRETÁRIA DE CILINDRO COM ALÇADO LIVREIRO
SECRETÁRIA DE CILINDRO COM ALÇADO LIVREIRO

SECRETÁRIA DE CILINDRO COM ALÇADO LIVREIRO

Escritorio cilíndrico con alzado librero (ES)
Cylinder roll-top bureau with bookcase top (EN)
Bureau à cylindre avec surmeuble bibliothèque (FR)
Zylindersekretär mit Bücheraufsatz (DE)
本棚付きシリンダー式ライティングデスク (JP)
Mobiliário
Desconhecido
- Autor

Portugal (País)
- Produtor

Descrição:
Secretária de cilindro com alçado livreiro. Móvel para escrita; madeira de mogno com embutidos em espinheiro (?). Produção portuguesa, de autor desconhecido, circa 1795–1815.

Móvel de volumetria predominantemente paralelepipédica, constituído por dois corpos independentes sobrepostos, com o superior recuado em relação ao inferior, executado em mogno maciço e ornamentado com embutidos em madeira de tonalidade mais clara, possivelmente espinheiro. O corpo inferior assume a forma de secretária de cilindro, cuja cobertura móvel, convexa, apresenta ao centro uma ampla reserva oval em madeira clara, delineada por fino filete e enquadrada por uma cercadura retangular com motivos em leque de composição geométrica radial nos ângulos. Dotada de dois puxadores torneados, recolhe para o interior da estrutura, revelando a respetiva fábrica, constituída por uma estirador de trabalho forrado a feltro preto, extensível para o exterior, três escaninhos e seis pequenas gavetas. A gaveta central da fiada inferior integra divisórias destinadas a utensílios de escrita e um compartimento secreto. Sob a cobertura dispõem-se quatro ordens de gavetas, de dimensões crescentes, sendo a superior formada por três gavetas justapostas e as restantes ocupando toda a largura da frente; as respetivas testas são decoradas com filetes embutidos e apresentam puxadores torneados e escudetes metálicos recortados. O corpo superior constitui um alçado livreiro em forma de vitrina, dispondo na base de três pequenas gavetas igualmente decoradas com filetes, sobre as quais se elevam duas portas envidraçadas com caixilharia geométrica formando losangos e polígonos irregulares. O interior é dividido por duas prateleiras móveis. O conjunto é rematado por espaldar recortado de perfil sinuoso, com elevação central e extremos rebaixados, centrado por um medalhão oval delineado por fino filete, e assenta sobre quatro pés torneados em forma de bola achatada.

A secretária de cilindro, também designada secretária de rolo, surgiu em França por volta de 1760, sendo geralmente associada ao ebanista de origem alemã Jean-François Oeben (1725–1763), a quem é atribuído o desenvolvimento deste inovador sistema de cobertura móvel. A difusão desta solução foi rápida, alcançando particular sucesso em Inglaterra durante o período georgiano, onde evoluiu para modelos que associavam a secretária a um alçado livreiro, conhecidos como cylinder bureau bookcase. Esta combinação respondia às exigências de uma sociedade cada vez mais ligada à administração, ao comércio e à circulação de informação, reunindo num único móvel as funções de escrita, arquivo e biblioteca.

Integrada na produção portuguesa de finais do século XVIII ou dos inícios do século XIX, esta peça evidencia a influência dos modelos britânicos difundidos em Portugal através de álbuns de desenhos e repertórios ornamentais publicados em Inglaterra. A sua configuração aproxima-se das propostas de Thomas Sheraton (1751–1806), divulgadas em The Cabinet-Maker and Upholsterer's Drawing-Book (1791–1794), obra que exerceu ampla influência na produção de mobiliário europeia. A cobertura de cilindro oculta um interior organizado em escaninhos, gavetas e compartimentos destinados à arrumação de documentos e utensílios de escrita, incluindo reservas dissimuladas para correspondência, valores e outros papéis de natureza reservada. O alçado superior oferece espaço para livros e documentação encadernada. O conjunto revela uma clara adesão ao gosto neoclássico, patente no equilíbrio das proporções, na depuração das linhas e na contenção ornamental. As reservas ovais, os filetes embutidos e o contraste cromático entre as madeiras testemunham a adaptação, pelas oficinas portuguesas, de soluções decorativas inspiradas nos repertórios britânicos, conciliando referências internacionais com materiais e práticas construtivas locais.

Proveio do acervo de Jorge de Melo Gamboa de Vasconcelos (1907–1995), médico, cirurgião, político, investigador e colecionador açoriano. Após a sua morte, a coleção foi dispersa através de um leilão promovido pelo Palácio do Correio Velho, em colaboração com a Sotheby’s, realizado em Lisboa, em outubro de 1995. Muitas das peças de maior relevância histórica, artística e patrimonial foram adquiridas por diversas entidades públicas e particulares dos Açores, contribuindo para a salvaguarda e valorização deste importante legado cultural regional. Entre as instituições locais que incorporaram exemplares provenientes da coleção encontram-se o Palácio de Sant’Ana, sede da Presidência do Governo Regional dos Açores, o Museu Carlos Machado e a Universidade dos Açores, entre outras, passando estes bens a integrar diferentes acervos e espaços de referência do património insular.
PEDRO PASCOAL DE MELO / PGRA (Julho, 2026)

Bibliografia consultada:
  • CARITA, Helder; CARDOSO, Homem — Oriente e Ocidente nos Interiores em Portugal. [s.l.]: Livraria Civilização, [s.d.].
  • PALÁCIO DO CORREIO VELHO — Leilão de coleção particular de uma casa dos Açores (Leilão n.º 50, outubro de 1995). Lisboa: Palácio do Correio Velho, 1996.

Dimensões:
Totais : A. 246 x L. 120 x P. 65 cm
Nº de Inventário:
PGRA-PS0700
Data de produção:
circa 1795-1815
Material e técnicas
Madeira (mogno e espinheiro?) - Ensamblada e embutida
Incorporação:
Peça adquirida em 1996, durante a vigência do VI Governo dos Açores (1995–1996), na sequência da dispersão do espólio do médico e colecionador Jorge de Melo Gamboa de Vasconcelos (1907–1995). Integra, desde então, as coleções da Presidência do Governo dos Açores, encontrando-se em exposição no Palácio da Conceição, em Ponta Delgada.

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