Frontal de altar, de natureza heráldica, centrado nas armas da família Chaves, proveniente da ermida de Santa Margarida de Chaves, Rosto do Cão (Ponta Delgada). Painel de azulejos policromos. Produção portuguesa, circa 1675–1700.
Executado em cerâmica vidrada e policroma, nas tonalidades de azul, amarelo, verde e manganês sobre fundo branco, apresenta-se sob a forma de um painel de 7 × 12 azulejos. A composição articula-se em sanefa superior, sebastos laterais e campo central, sendo inferiormente rematada por rodapé ornamental. A sanefa e os sebastos apresentam decoração vegetalista de acantos estilizados, com franjas pendentes evocativas de soluções têxteis. No campo central desenvolve-se uma composição de gosto orientalizante, inspirada nos denominados “panos da Índia”, integrando o escudo de armas da família Chaves — de prata, cinco chaves de ouro, postas em pala, com os palhetões volvidos para fora — encimado por elmo de perfil e paquife de acantos estilizados. O conjunto é ladeado por folhagens simétricas, sobre as quais se dispõem dois pares de pavões afrontados. A faixa inferior apresenta um registo figurado em paisagem contínua, com representação de fauna diversa, identificando-se, da esquerda para a direita, um cavalo, duas ovelhas, dois elefantes, um veado e um coelho. O remate faz-se por rodapé vegetalista de acantos estilizados. Os dois azulejos dos extremos superiores encontram-se simulados, pintados sobre suporte em estuque, em substituição de exemplares originais desaparecidos.
Em Portugal, a aplicação de azulejos nas frentes das mesas de altar remonta ao final do século XVI, generalizando-se no século XVII. A sua adoção relaciona-se não apenas com a durabilidade do material, mas também com orientações da Igreja que visavam moderar a ostentação e conter gastos sumptuários, substituindo os frontais têxteis por soluções mais sóbrias e permanentes. Neste contexto, o azulejo permite simular franjas, sanefas e padrões tecidos, como os do damasco ou do brocado, conciliando contenção material com riqueza visual. Na segunda metade desse período, a incorporação de modelos decorativos de inspiração oriental, difundidos pelos chamados “panos da Índia” — tecidos luxuosos importados do Oriente, caracterizados por padrões vegetalistas exuberantes e pela presença de fauna exótica —, deu origem a um tipo de frontal distinto, de configuração inconfundível, constituindo uma das mais expressivas manifestações de transculturação na arte portuguesa.
Originalmente colocado no altar-mor da ermida de Santa Margarida de Chaves (de nave única e com um só altar), situada na atual rua Escultor Ernesto Canto da Maia (antiga Rua dos Prestes), em Rosto do Cão, nos arredores de Ponta Delgada, edificada no último quartel do século XVII pelo capitão Francisco Afonso de Chaves, descendente colateral de Margarida de Chaves (1515–1575), declarada venerável pela Igreja Católica. Natural da mesma cidade, ela revelou desde cedo acentuada inclinação para a vida religiosa, passando longos períodos em contemplação e adotando um modo de vida austero, pautado por rigorosa observância. A sua reputação de santidade foi-se consolidando, intensificando-se na fase final da vida e após a morte, ocorrida em ambiente de grande aparato devocional. Em consequência, foram-lhe atribuídos diversos milagres por intercessão, o que levou à abertura de um processo de averiguação por iniciativa do bispo de Angra, D. Pedro de Castilho. Deste resultou um sumário, datado de 27 de março de 1586, remetido a Roma com vista à canonização. Em antecipação desse reconhecimento — que não chegou a concretizar-se, não tendo sido elevada à condição de beata —, foi erigida em Ponta Delgada uma ermida, junto à sua residência, entretanto desaparecida, inicialmente dedicada a Santa Margarida Mártir, onde se procurou instituir o culto da venerável, bem como a referida ermida dos Prestes, noutra propriedade familiar.
Removido do local original, juntamente com um brasão (vd. PGRA‑PS1101) com as mesmas armas, colocado no frontispício, o conjunto foi transferido cerca de 1920 por Aires Jácome Correia, marquês de Jácome Correia (1832–1937), para a sua residência, o Palácio de Sant’Ana, onde permanece aplicado na parede sul da escada de serviço. A cronologia desta deslocação carece, contudo, de confirmação documental. Integra um núcleo de azulejaria dos séculos XVII e XVIII proveniente de edificações civis e religiosas da ilha de São Miguel, muitas das quais entretanto desaparecidas. Permaneceu no edifício aquando da venda do Palácio de Sant’Ana à Região Autónoma dos Açores, formalizada em 30 de dezembro de 1977.
PEDRO PASCOAL DE MELO / Junho, 2026
Bibliografia consultada:
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