MARTÍRIOS DE SÃO LOURENÇO E SANTO ESTEVÃO [Díptico]
MARTÍRIOS DE SÃO LOURENÇO E SANTO ESTEVÃO [Díptico]
MARTÍRIOS DE SÃO LOURENÇO E SANTO ESTEVÃO [Díptico]
MARTÍRIOS DE SÃO LOURENÇO E SANTO ESTEVÃO [Díptico]

MARTÍRIOS DE SÃO LOURENÇO E SANTO ESTEVÃO [Díptico]

Martirios de San Lorenzo y San Esteban [Díptico] [ES]
Martyrdoms of Saint Lawrence and Saint Stephen [Diptych] [EN]
Martyrs de Saint Laurent et Saint Étienne [Diptyque] [FR]
Martyrium des Heiligen Laurentius und des Heiligen Stephanus [Diptychon] [DE]
聖ラウレンティウスと聖ステファノの殉教[二連祭壇画][JP]
Arte Sacra
Oficina sino-portuguesa
- Produtor

Descrição:
Díptico dos martírios de São Lourenço e Santo Estevão em marfim. Escultura religiosa. Produção sino-portuguesa, não marcada, circa 1601-1700.

Baixo-relevo em marfim de elefante, finamente entalhado e polido. Concebido como díptico, reúne duas placas molduradas, cada uma dedicada a um episódio distinto. O conjunto representa os martírios de São Lourenço e de Santo Estêvão, recorrendo a uma linguagem devocional marcada e enriquecida por soluções formais características da produção sino‑portuguesa. As inscrições latinas gravadas nas molduras orientam a leitura das cenas e intensificam o respetivo conteúdo narrativo.

A primeira placa mostra o suplício de São Lourenço, deitado e preso sobre a grelha incandescente que constitui o instrumento do seu martírio. A figura do santo, cuidadosamente modelada, revela uma expressão serena, contrastando com o dinamismo das personagens envolventes. Três carrascos participam na ação: dois alimentam as chamas enquanto um terceiro maneja um instrumento de tortura cuja extremidade se perdeu, possivelmente um forcado, conforme testemunham representações gravadas do mesmo episódio. No plano de fundo, elementos arquitetónicos aludem à cidade de Roma, local tradicionalmente associado ao martírio. Entre as figuras que observam a execução, destaca‑se uma personagem de braço estendido, identificável como o imperador Valeriano, responsável pela condenação do santo. Na moldura inscreve‑se a legenda DOMINE IESV ACCIPE SPIRITV MEVM (“Senhor Jesus, recebe o meu espírito”), evocação direta das palavras atribuídas a São Lourenço no momento da morte. A composição segue modelos iconográficos consolidados a partir dos textos de Prudêncio (348–c. 410), em particular o Peristephanon, e da Legenda Aurea de Jacopo da Varazze (séc. XIII), que contribuíram decisivamente para a fixação visual do episódio e dos respetivos instrumentos de martírio.

A segunda placa representa o martírio de Santo Estêvão, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos (cap. 6-7). No centro da composição, Santo Estêvão surge ajoelhado, em atitude orante, com os braços erguidos e envergando uma dalmática ricamente ornamentada. Em redor, os lapidadores organizam‑se em várias direções, conferindo tensão e movimento à cena. O fundo arquitetónico remete para Jerusalém, cenário do episódio, e integra soldados romanos, em consonância com o texto bíblico. Entre estes estaria Saulo o futuro Apóstolo Paulo embora não seja possível reconhecê-lo individualmente na cena. Num registo superior, entre nuvens densamente trabalhadas, apresenta-se a visão celeste com Cristo à direita do Pai, estabelecendo a mediação entre o plano terreno e o divino. Na moldura encontra-se a inscrição VIDEO COELOS APERTOS & IESVM STANTEM A DEXTRIS DEI (“Vejo os céus abertos e Jesus de pé à direita de Deus”), correspondente às palavras proferidas pelo mártir no momento da lapidação.

São Lourenço e Santo Estêvão figuram entre os mártires mais venerados da tradição cristã. São Lourenço, diácono romano do século III e administrador dos bens da Igreja, foi martirizado no ano de 258 após recusar entregar esses bens às autoridades imperiais. A sua memória litúrgica celebra-se a 10 de agosto. Santo Estêvão, protomártir cristão e um dos sete diáconos instituídos para a assistência aos necessitados, foi apedrejado em Jerusalém nos primeiros anos do cristianismo, por volta de 34-35, perdoando os seus executores no momento da morte. A sua festa ocorre a 26 de dezembro no Ocidente e a 27 de dezembro no Oriente. A tradição associa ainda as relíquias de ambos na basílica de San Lorenzo fuori le Mura, em Roma, reforçando a simbologia do diaconado como serviço e testemunho até ao martírio.

A produção deste díptico insere-se nas oficinas sino‑portuguesas de Cantão e Macau, ativas entre os séculos XVII e XVIII, centros fundamentais para a criação de marfins destinados tanto ao mercado europeu como às missões jesuítas. Nestes contextos, marcados pela expansão portuguesa e espanhola na Ásia e pela ação missionária da Companhia de Jesus, desenvolveu‑se um ambiente artístico profundamente caracterizado pelo diálogo intercultural: missionários introduziam gravuras, esculturas e objetos devocionais europeus, enquanto artesãos chineses reinterpretavam esses modelos segundo as tradições estéticas e técnicas locais. Entre as fontes visuais mais utilizadas destacavam‑se gravuras europeias amplamente difundidas no meio missionário – como as de Marcantonio Raimondi ou Cornelis Cort, para São Lourenço, e as derivadas de composições de Giulio Romano ou Annibale Carracci, para Santo Estêvão. Os artífices chineses adaptavam estes modelos ao entalhe em marfim, criando uma síntese singular entre iconografia cristã e vocabulário formal asiático.

Essa fusão é evidente no díptico: as figuras apresentam modelação suave e expressão contida, características da estética idealizante chinesa, preservando a clareza narrativa necessária à catequese cristã. O rigor técnico e o acabamento minucioso testemunham a perícia dos artistas, habituados a trabalhar materiais preciosos para mercados locais e internacionais. O tratamento das nuvens em volutas contínuas, evocando o motivo ruyi yun (“nuvens propícias”), símbolo auspicioso recorrente no sul da China, adquire aqui um lugar inesperado mas harmonioso num contexto hagiográfico cristão.

No âmbito da evangelização jesuíta no Oriente – que fazia da imagem um instrumento catequético essencial – obras como este díptico funcionavam simultaneamente como objetos de devoção e como meios pedagógicos. Através das legendas latinas, das cenas martiriais e das referências bíblicas, transmitiam mensagens fundamentais da doutrina cristã: a união do mártir com Cristo, a aceitação do sacrifício e a esperança da redenção. A integração de formas visuais familiares ao olhar chinês reforçava a eficácia desta transmissão, concretizando o ideal jesuíta da aculturação – o anúncio do Evangelho dialogando com as tradições locais. Assim, o díptico não é apenas um objeto devocional, mas um testemunho eloquente do encontro entre a Europa cristã e a China num período em que arte, catequese e diplomacia cultural se entrelaçaram profundamente. Constitui uma obra de extraordinária relevância histórica e artística, demonstrando como a tradição iconográfica cristã pôde ser recriada com sensibilidade e mestria no contexto asiático, dando origem a peças de forte impacto espiritual e notável originalidade formal.
PEDRO PASCOAL DE MELO / PGRA (Fevereiro, 2026)

Nota:
Integrou a exposição “A Expansão Portuguesa e a Arte do Marfim”, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, na Galeria de Exposições Temporárias, em Lisboa, entre 25 de junho e 15 de setembro de 1991, onde figura com os números de catálogo 543 e 544. A mostra teve comissariado geral de Francisco Hipólito Raposo e coordenação de Francisco Faria Paulino, sendo promovida pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1986-2002), organismo público responsável pela preparação, organização e coordenação das comemorações dos Descobrimentos Portugueses do século XV.


Bibliografia consultada:
  • BAILEY, Gauvin Alexander; MASSING, Jean Michel; SILVA, Nuno Vassalo e. Marfins no Império Português = Ivories in the Portuguese Empire. Lisboa: Scribe, 2013.
  • COMISSÃO Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (org.). A Expansão Portuguesa e a Arte do Marfim [Catálogo de Exposição]. Lisboa: Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, 1991.
  • DIAS, Pedro. A arte do marfim: o mundo onde os portugueses chegaram. Porto: V.O.C. Antiguidades, 2004.
  • LIMA, Isabel Pires de [et al.]. Encompassing the Globe: Portugal and the world in the 16th and 17th centuries [Catálogo de Exposição]. Washington: Arthur M. Sackler Gallery, Smithsonian Institution, 2007.
  • SILVA, Maria Madalena de Cagical e. A Arte Indo-Portuguesa. [Lisboa]: Excelsior, 1966.
  • TÁVORA, Bernardo Ferrão de Tavares e. Imaginária luso-oriental. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.

 

Dimensões:
Totais : A. 11,5 x C. 22,3 x P. 0,8 cm
Nº de Inventário:
PGRA-PS0217
Data de produção:
circa 1601-1700
Material e técnicas
Marfim de elefante -  Entalhado e polido
Incorporação:
Adquirido em 1987, durante a vigência do III Governo dos Açores (1984-1988), ao antiquário e colecionador Eduardo Rangel Pamplona Silvano (1924-1999). Integra desde então as coleções da Presidência do Governo dos Açores, estando em exposição no Palácio de Sant'Ana, em Ponta Delgada.

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