MENINO JESUS BOM PASTOR
MENINO JESUS BOM PASTOR
MENINO JESUS BOM PASTOR
MENINO JESUS BOM PASTOR

MENINO JESUS BOM PASTOR

Niño Jesús Buen Pastor [ES]
Infant Jesus the Good Shepherd [EN]
Enfant Jésus Bon Pasteur [FR]
Jesuskind der Gute Hirte [DE]
幼子イエス・善き羊飼い [JP]
Arte Sacra
Oficina indo-portuguesa
- Produtor

Descrição:
Representação do Menino Jesus Bom Pastor em marfim. Escultura religiosa. Produção indo-portuguesa, não marcada, atribuída a oficina de Goa, circa 1601-1700.

Escultura de vulto pleno em marfim de elefante, entalhado e polido. Representa a figura infantil de Jesus com expressão recolhida – a cabeça ligeiramente inclinada apoia-se na mão direita e os olhos cerrados sugerem meditação sobre o futuro sacrifício redentor e a missão terrena. O cabelo, disposto em longas madeixas suavemente onduladas, reforça a idealização juvenil da figura. A mão que sustém a cabeça forma um gesto de bênção e afirmação cristológica – os dedos indicador e médio erguidos aludem à dupla natureza de Cristo, humana e divina –, enquanto os três dedos fletidos evocam a Santíssima Trindade. O braço direito repousa sobre uma cabaça presa à cintura; o esquerdo sustém um cordeiro sobre a perna, enquanto outro animal ascende pelo ombro do mesmo lado, sublinhando a dimensão pastoral e protetora da iconografia. Jesus veste uma túnica curta de pele de velo, cingida por cinto com nó em laço, e traz à tiracolo um pequeno bornal pendente de correia que cruza o peito. Surge sentado à maneira oriental, com as pernas cruzadas e calçando sandálias, sobre um coração trespassado por setas – preservando-se apenas uma delas – símbolo tradicional do amor em contextos sacros e profanos. A base, concebida como montanha escalonada e decorada de forma a preencher todo o espaço, organiza-se em vários patamares com cenas simbólicas. Destaca-se a Fonte da Vida (Fons Vitae) – metáfora do renascimento e da purificação – um manancial que brota de uma carranca e atrai aves do paraíso e cordeiros, remetendo para a regeneração espiritual e a salvação. Na zona inferior, uma concavidade, ladeada por duas figuras leoninas guardiãs, acolhe Santa Maria Madalena, de cabelos longos e soltos, reclinada à indiana e folheando um livro – símbolo de leitura devocional e de penitência –, reforçando o seu papel como modelo de fé e arrependimento. Todo o conjunto assenta sobre base ornada com uma tarja de perlados e, na parte posterior, apresenta uma ornamentação de incisões formando losangos. Pequenos orifícios na base e no coração sugerem a inserção de ramos ou outros adereços vegetais – que representariam uma Árvore da Vida, atributo de renovação, crescimento espiritual e conexão divina –, elementos que não se conservaram até aos nossos dias. A escultura divide-se em três partes – figura, coração e base – que se encaixam entre si.

Trata-se de um exemplo singular do cruzamento entre a espiritualidade cristã ocidental e elementos formais e simbólicos de origem oriental, em particular budista. Representa o Menino Jesus sentado com as pernas cruzadas “à oriental”, em atitude recolhida e meditativa, remetendo simultaneamente para a iconografia do Bom Pastor na arte indo‑portuguesa, em que o Menino surge adormecido ou em êxtase. Convoca passagens bíblicas de grande densidade simbólica, como o Salmo do Bom Pastor (Salmos 22) e o episódio evangélico do Bom Pastor (João 10:1‑21), associado à Parábola da Ovelha Perdida, sublinhando a dimensão pastoral e redentora da obra. O gesto da mão sustentando a cabeça combina introspeção com função cristológica, enquanto a túnica curta, cingida por cinto em laçada, e a presença de cordeiros – sobre o ombro e a perna – reforçam a função pastoral da figura. A base escalonada organiza-se como uma montanha simbólica, incluindo a representação da Fons Vitae, associada à regeneração espiritual, e dois leões guardiães, empréstimo da tradição indiana que assinala a fronteira entre o mundo terreno e o espaço sagrado. Na zona inferior, Santa Maria Madalena surge reclinada “à indiana”, com longos cabelos soltos e um livro aberto, simbolizando penitência, devoção e conhecimento espiritual.

Destinadas a oratórios privados, estas esculturas cumpriam uma função simultaneamente didática e devocional, ao serviço de um ensino catequético persuasivo e eficaz. A sua produção insere-se plenamente nos princípios da Contrarreforma e na estratégia missionária da Igreja Católica, que privilegiava a imagem como instrumento de instrução, estímulo à piedade e consolidação da fé, através de representações visualmente acessíveis e emocionalmente envolventes. Neste quadro, assumem particular relevo as oficinas escultóricas de Goa, então centro político, religioso e artístico da Índia portuguesa, onde artesãos locais, frequentemente a partir de modelos europeus, desenvolveram uma produção em marfim de carácter profundamente híbrido. Aí, esquemas iconográficos cristãos, difundidos sobretudo pela gravura ocidental, foram reinterpretados à luz de tradições artísticas indianas e asiáticas, originando soluções formais de notável originalidade e grande eficácia comunicativa.

Pelo sincretismo que a caracteriza, a iconografia do Bom Pastor afirma-se como uma das expressões mais emblemáticas da convergência entre tradições cristãs, budistas e hindus, constituindo um testemunho particularmente eloquente dos processos de contacto cultural, adaptação simbólica e diálogo religioso que marcaram a Expansão Portuguesa. A peça sintetiza, assim, a arte indo‑portuguesa ao conjugar contemplação budista e redenção cristã, integrando iconografia bíblica, símbolos teológicos e elementos formais indianos, e evidencia a capacidade de Goa, enquanto centro artístico do Estado Português da Índia, de produzir objetos devocionais híbridos, teologicamente densos e esteticamente refinados.
PEDRO PASCOAL DE MELO / PGRA (Fevereiro, 2026)

Nota:
Integrou a exposição “A Expansão Portuguesa e a Arte do Marfim”, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, na Galeria de Exposições Temporárias, em Lisboa, entre 25 de junho e 15 de setembro de 1991, onde figura com o número de catálogo 250. A mostra teve comissariado geral de Francisco Hipólito Raposo e coordenação de Francisco Faria Paulino, sendo promovida pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1986-2002), organismo público responsável pela preparação, organização e coordenação das comemorações dos Descobrimentos Portugueses do século XV. Embora no catálogo ainda conste como propriedade do antiquário e colecionador Eduardo Rangel Pamplona Silvano, a obra pertence, desde 1987, às coleções da Presidência do Governo dos Açores.


Bibliografia consultada:
  • BAILEY, Gauvin Alexander; MASSING, Jean Michel; SILVA, Nuno Vassalo e. Marfins no Império Português = Ivories in the Portuguese Empire. Lisboa: Scribe, 2013. 
  • COMISSÃO Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (org.). A Expansão Portuguesa e a Arte do Marfim [Catálogo de Exposição]. Lisboa: Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, 1991.
  • DIAS, Pedro. A arte do marfim: o mundo onde os portugueses chegaram. Porto: V.O.C. Antiguidades, 2004.
  • LIMA, Isabel Pires de [et al.]. Encompassing the Globe: Portugal and the world in the 16th and 17th centuries [Catálogo de Exposição]. Washington: Arthur M. Sackler Gallery, Smithsonian Institution, 2007.
  • OSSWALD, Maria Cristina. O Bom Pastor na imaginária indo-portuguesa em marfim [Dissertação de Mestrado]. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1996 [Disponível em: Repositório Aberto da Universidade do Porto: O Bom Pastor na imaginária indo-portuguesa em marfim. Acesso em: 18 fev. 2026].
  • PINTO, Maria Helena Mendes; COSTA, João Paulo de Oliveira e; MACEDO, Jorge Borges de. De Goa a Lisboa: A Arte Indo Portuguesa dos Séculos XVI a XVIII [Catálogo de Exposição]. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura, 2002.
  • SILVA, Maria Madalena de Cagical e. A Arte Indo-Portuguesa. [Lisboa]: Excelsior, 1966.
  • TÁVORA, Bernardo Ferrão de Tavares e. Imaginária luso-oriental. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.

Dimensões:
Totais : A. 19,2 x L. 6,5 x P. 5 cm
Nº de Inventário:
PGRA-PS0218
Data de produção:
circa 1601-1700
Material e técnicas
Marfim de elefante - Entalhado e polido
Incorporação:
Adquirido em 1987, durante a vigência do III Governo dos Açores (1984-1988), ao antiquário e colecionador Eduardo Rangel Pamplona Silvano (1924-1999). Integra desde então as coleções da Presidência do Governo dos Açores, estando em exposição no Palácio de Sant'Ana, em Ponta Delgada.

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