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ALEGORIA DO VERÃO

Alegoría del Verano [ES]
Allegory of Summer [EN]
Allegory of Summer [FR]
Allegorie des Sommers [DE]
夏の寓意 [JP]
Artes visuais
Real Fábrica de Louça (do Rato)
- Produtor (atrib.)

Descrição:
Representação alegórica do Verão em faiança. Escultura civil. Produção portuguesa, não marcada, atribuível à Real Fábrica de Louça (do Rato, Lisboa), do século XVIII (2.ª metade). Integra um conjunto, das Quatro Estações, com: MCM7194 (Inverno), MCM7195 (Outono) e MCM7196 (Primavera).

A figura alegórica do Verão, masculina, em vulto pleno e de características clássicas, assenta sobre base quadrangular e apresenta-se executada em faiança moldada e vidrada a branco. Figura um jovem na transição entre a infância e a adolescência, de anatomia ainda arredondada e expressão serena. Surge de pé, com o peso do corpo apoiado na perna direita e a esquerda ligeiramente fletida, configurando uma postura de contrapposto que acentua a suavidade do movimento. A cabeça, levemente voltada para a direita, é enquadrada por cabeleira farta e ondulada, coroada por grinalda de espigas. O corpo, totalmente nu, apresenta modelação cuidada e naturalista, de proporções harmoniosas. O braço esquerdo desce ao longo do corpo, segurando um feixe de espigas – símbolo de paz, abundância e prosperidade – que evoca a fertilidade dos campos e a plenitude vital da estação. O braço direito repousa sobre a anca, enquanto um tronco de videira serve de apoio à figura, envolvendo a cintura com uma vide que termina numa folha de parra cobrindo o sexo. O ligeiro movimento do tronco e a serenidade do rosto conferem à figura uma expressão de confiança e plenitude, exaltando a força, o calor e a abundância próprios do verão. A articulação entre o movimento das pernas, a inflexão da cabeça e o posicionamento dos braços estabelece um ritmo suave e equilibrado, revelando a intenção de dinamização plástica e o domínio técnico do modelador.

Trata-se de produção portuguesa, sem marca, atribuível à Real Fábrica de Louça do Rato. Obra datável da segunda metade do século XVIII, poderá corresponder, se não à produção cerâmica coeva, pelo menos ao molde matricial original dessa cronologia. A peça integra um conjunto de alegorias das Quatro Estações, concebidas segundo modelos “ao antigo”, expressão do gosto moralizante e classicizante que marcou a cultura artística setecentista. O tema, de raízes antigas e amplamente retomado na Europa do século XVIII, conheceu grande difusão na escultura e nas artes decorativas, a partir de protótipos franceses e italianos que circularam entre as principais manufaturas cerâmicas do período. Para além do Verão, figuram igualmente as alegorias da Primavera, única figura feminina, representada como uma jovem coroada de flores, símbolo de renovação e fecundidade; do outono, retratado como um homem maduro, associado ao tempo das colheitas, cuja mão esquerda, hoje perdida, terá possivelmente segurado um cacho de uvas, símbolo das vindimas e da generosidade da terra; e do Inverno, que mostra um homem idoso e inclinado sobre um braseiro, símbolo da fragilidade e do recolhimento que marcam o fim do ciclo da vida. A correspondência entre as estações e as idades do homem traduz uma visão simbólica da vida, associando o ciclo natural à passagem do tempo. Essa relação reflete o ideal neoclássico e iluminista de harmonia entre natureza, arte e moral, uma expressão de ordem e equilíbrio universais.

Na coleção Documentos para a História da Arte em Portugal, publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, no volume XV, intitulado Documentos dos séculos XVI a XIX do Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa, 1976), encontra-se transcrita, na página 85, a referência a um “Inventário de toda a louça, matéria e móveis que se achou existir em ser na Real Fábrica de Louça [...]”, datado de 31 de julho de 1784. Nesse documento mencionam-se “4 Ditas [formas] de estátuas das estações do ano, a 1$600 [total] 6$400 réis”, registo que poderá corresponder a este conjunto escultórico.

A proveniência do grupo remonta à antiga Quinta do Botelho, ou Quinta de Nossa Senhora da Penha de França, situada no lugar do Livramento, na ilha de São Miguel. A formação da propriedade recua a meados do século XVII, embora o conhecimento sobre a configuração inicial do edificado seja limitado. Na segunda metade do século XVIII, pertencia ao reverendo Dâmaso José de Carvalho (1745-1807), responsável por várias intervenções estruturais, incluindo a renovação da ermida datada de 1788. Após a sua morte, passou para o irmão Francisco Caetano de Carvalho (1749-1812), que ampliou a residência e, muito provavelmente, reorganizou o jardim onde estas esculturas se integravam. Falecendo sem herdeiros diretos, designou como sucessor Jacinto Inácio Rodrigues da Silveira (1785-1869), futuro Barão da Fonte Bela, garantindo, contudo, o usufruto vitalício de parte dos bens à esposa, D. Ana Rosa de Oliveira. A incorporação plena da quinta no património do barão efetivou‑se apenas em 1826, com o falecimento da usufrutuária. Sob a direção do barão e dos seus descendentes, a propriedade sofreu uma ampla campanha de transformação que abrangeu o corpo principal e os espaços ajardinados, adquirindo um carácter mais apalaçado e integrando elementos paisagísticos associados ao romantismo oitocentista.

Uma fotografia de António José Raposo (1838-1916), datável de cerca de 1890, regista a disposição das Estações no jardim: organizadas num parterre de desenho geométrico, com lago central, diante da fachada poente da casa. O traçado incluía quatro compartimentos em forma de pétala, revestidos por azulejos de padrão e intercalados com canteiros floridos. No centro de cada compartimento erguia‑se uma das figuras alegóricas, estabelecendo um diálogo entre forma, cor e volume que reforçava a simetria e o efeito cénico do conjunto. No lago central, sobre uma coluna, elevava‑se um putto em faiança, funcionando como fonte, acentuando o carácter lúdico e ornamental do espaço. Esta articulação entre escultura, arquitetura e natureza exemplifica a harmonia compositiva presente em algumas quintas senhoriais micaelenses do período.
SÍLVIA MASSA e PEDRO PASCOAL DE MELO (Novembro, 2025)

Bibliografia consultada:
  • ALBERGARIA, Maria Isabel Soares de. Jardins e Parques da Ilha de São Miguel: 1785-1885. Lisboa: Quetzal Editores, 2000.
  • ALBERGARIA, Maria Isabel Soares de. A Casa Nobre na Ilha de S. Miguel: Do Período Filipino ao Final Antigo Regime [Tese de Doutoramento]. Lisboa: Instituto Superior Técnico/Universidade Técnica de Lisboa, 2012 [Disponível em: A casa nobre na Ilha de S. Miguel: do Período Filipino ao final do Antigo Regime - Scholar. Consulta em: 05 nov. 2025].
  • LINO, Raul (org.); SILVEIRA, Luís (org.). Documentos para a história da arte em Portugal [V. 15]: Documentos dos século XVI a XIX do Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1976.
  • PAIS, Alexandre Nobre (et al.). Real Fábrica de Louça, ao Rato [catálogo de exposição]. Lisboa: Museu Nacional da Azulejo; Porto: Museu Nacional Soares dos Reis: 2003.
  • RODRIGUES, Ana Duarte. "Elites, estratégias e especificidades da encomenda de escultura de jardim em Portugal (1670-1800)", in Análise Social, vol. 207, n.º 48 (2013), pp. 368-394 [Disponível em: Vol. 48 N.º 207 (2013) | Análise Social. Consulta em: 05 nov. 2025].

Dimensões:
Totais : A. 82,5 x L. 30,5 x P. 23 cm
Nº de Inventário:
MCM7197a
Data de produção:
Século XVIII (2.ª metade)
Material e técnicas
Cerâmica (Faiança) - Moldada e vidrada a branco
Incorporação:
Possivelmente incorporada nas coleções do Museu Carlos Machado entre o final da década de 1940 e o início da seguinte, por cedência da Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, então proprietária da Quinta do Botelho (Fonte Bela). Presentemente, encontra-se em depósito no Palácio de Sant’Ana, residência oficial do Presidente do Governo Regional dos Açores, em Ponta Delgada.
Entidade relacionada
Museu Carlos Machado

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